A Nicarágua deixou de ser uma democracia formal. Daniel Ortega, o ex-guerrilheiro que ajudou a derrubar uma ditadura em 1979, anunciou no domingo (19) que o país não realizará mais eleições. “Não haverá mais eleições aqui para que eles tentem tomar o governo e o poder”, discursou o ditador de 80 anos, que governa o país há quase duas décadas ao lado da esposa Rosario Murillo. A declaração sepulta de vez qualquer resquício de alternância democrática e escancara o que organizações internacionais já denunciavam: a Nicarágua tornou-se um Estado autoritário, com mais de 300 mortos na repressão desde 2018 e dezenas de presos políticos.
O silêncio cúmplice de Brasília
Enquanto 55 países condenaram o regime de Ortega na ONU, o Brasil foi um dos poucos a não assinar a declaração. Não é coincidência. A relação entre Lula, o PT e o ditador nicaraguense é umbilical, forjada no Foro de São Paulo ainda nos anos 1990. Em 2021, o partido publicou uma nota oficial celebrando a reeleição de Ortega — mesmo com a prisão de sete opositores e denúncias generalizadas de fraude. O texto, que descrevia o regime como “um projeto político que tem como principal objetivo a construção de um país socialmente justo e igualitário”, só foi retirado do site após a repercussão negativa. A então presidente do PT, Gleisi Hoffmann, alegou que a nota não havia sido submetida à direção nacional — uma desculpa tão frágil quanto o compromisso do partido com a democracia.
O cinismo da “crítica”
O próprio Lula, em 2021, chegou a aconselhar Ortega, publicamente, a “não abandonar a democracia” e a “preservar as liberdades de imprensa”. Palavras vazias. O mesmo Lula que, em 2016 e 2021, viu seu partido celebrar as vitórias do ditador. A estratégia é clara: criticar em público para inglês ver, mas manter o abraço nos bastidores. Enquanto isso, a repressão na Nicarágua se intensifica: igrejas são fechadas, padres e freiras são perseguidos, jornalistas são presos e mais de 5 mil organizações, em sua maioria religiosas, foram fechadas. O documentário “Nicarágua: Liberdade Exilada”, da Brasil Paralelo, expõe o drama de um povo que se tornou vítima do próprio governo.
O preço da aliança ideológica
A hipocrisia do discurso petista é escancarada. O partido que se diz defensor da democracia e dos direitos humanos trata Ortega como aliado de primeira hora, enquanto a OEA, a ONU e o Parlamento Europeu condenam o regime. O Foro de São Paulo, que reúne partidos de esquerda latino-americanos, serviu como plataforma para essa camaradagem autoritária. Lula e o PT não apenas toleram a ditadura na Nicarágua — eles a celebram, sempre que possível, como parte de um projeto ideológico que coloca a “solidariedade” entre regimes acima da defesa da liberdade.
Conclusão: o espelho do autoritarismo
O fim das eleições na Nicarágua é o desfecho lógico de um processo que o PT aplaudiu por anos. Enquanto o mundo civilizado isola ditadores, o Brasil de Lula mantém a tradição de abraçar tiranos. A pergunta que fica é direta: quantas igrejas fechadas, quantos jornalistas presos e quantos exilados serão necessários para que o PT finalmente rompa com esse aliado incômodo? A resposta, infelizmente, é óbvia: nenhum. Porque, para o Foro de São Paulo, a lealdade ideológica vale mais do que a vida e a liberdade do povo nicaraguense.

