Quando um jornalista começa a considerar interesses financeiros, comerciais, políticos ou ideológicos na escolha de suas pautas, ele já não está fazendo jornalismo. A afirmação, dura e direta, vem de quem conhece os bastidores por dentro. Durante 25 anos na Rede Globo — cinco na afiliada em Santa Catarina e 20 no Rio de Janeiro — este repórter viveu na pele o que chama de “pautas fajutas”: histórias contadas não pela relevância dos fatos, mas pelos interesses de quem financia o veículo. O que ele revela é um retrato assustador de como a grande imprensa pode abandonar sua missão fundamental em nome de contratos, negócios e alianças políticas.
O Caso João Havelange: A Entrevista que Nunca Foi Investigativa
O primeiro episódio aconteceu quando o repórter era apresentador do Esporte Espetacular. João Havelange já não era mais presidente da FIFA, mas pipocavam na imprensa denúncias graves contra ele: tráfico de influência, favorecimento e corrupção. A pauta, porém, não era investigar essas acusações. Era uma homenagem.
“Coloquei meu terno e gravata”, lembra o jornalista, “porque Havelange só dava entrevista para equipes de terno e gravata.” A diretoria de esportes da Globo aprovou previamente todas as perguntas. O repórter estava proibido de tocar em qualquer assunto relacionado às denúncias. O resultado foi uma entrevista que permitia a Havelange “encher a própria bola”, uma farsa jornalística que o profissional foi obrigado a executar sob constrangimento.
Pouco depois, explodiu o escândalo da CBF envolvendo Ricardo Teixeira, genro de Havelange, e José Maria Marin, que seria preso nos Estados Unidos. A ordem da direção de esporte da Globo era clara: não falar do assunto. O repórter, já apresentador dos blocos de esporte do Bom Dia Brasil, foi ao chefe de redação e argumentou: “Tá todo mundo falando disso, o assunto é grave.” A resposta foi seca e reveladora: “Tá maluco? Nós temos contratos com os caras, não vamos ficar falando mal deles não.”
Por cerca de um mês, o silêncio prevaleceu — até que o escândalo se tornou grande demais para ser ignorado.
A Pedreira São Marcos: Quando o Nome Define a Notícia
O terceiro caso remete à época em que o jornalista atuava como repórter da editoria Rio, antes de migrar para o esporte. Recebeu uma denúncia de moradores de um vilarejo em Magé, na Serra do Rio. Uma pedreira na região estava fazendo implosões com carga de explosivos acima do permitido, e as casas dos moradores estavam todas rachadas de cima a baixo.
O repórter passou horas com a câmera apontada para a pedreira até flagrar duas implosões. Depois, foi à sede da empresa, com a câmera disfarçadamente ligada, e gravou o diretor admitindo: “Sim, uma pedreira trabalha sim, nós matamos, sim, nós implodimos, sim.” A denúncia era forte, o material estava pronto, a reportagem deveria ir ao ar no dia seguinte.
Não foi.
Ao perguntar ao chefe de reportagem o que havia acontecido, ouviu: “Não é porque a pedreira se chama São Marcos, que é o mesmo nome da empresa de engenharia da família Marinho. Enquanto a gente não tiver certeza de que a pedreira não tem nada a ver com a empresa de engenharia da família Marinho, essa reportagem não vai ao ar.”
No fim, a pedreira não tinha relação alguma com a empresa dos Marinho, e a reportagem foi exibida. Mas o jornalista reflete: “Se tivesse alguma relação, essa reportagem teria sido derrubada, teria ido para a lixeira.”
O Jornalismo Destruído por Interesses Não Jornalísticos
Esses três casos escancaram um problema que, segundo o repórter, se agravou nos últimos anos. “Se o jornalista tá preocupado com quem uma reportagem pode beneficiar ou prejudicar, ele não está mais fazendo jornalismo”, afirma. Desde o início do governo Bolsonaro, e especialmente durante a pandemia da COVID-19, o que ele chama de “consórcio de imprensa nojento” tem agido conforme interesses não jornalísticos.
O relato é contundente: jornalistas que deveriam trabalhar com fatos, independentemente de sua orientação política, muitas vezes se curvam a pautas definidas por interesses comerciais ou ideológicos. A crítica se estende aos dois lados do espectro político: “Jornalistas de linha conservadora, que trabalham com fatos”, deveriam ser tão críticos quanto “jornalistas de linha socialista ou comunista” quando o assunto exige isenção.
O exemplo citado é revelador: quando Flávio Bolsonaro propôs distribuir celulares para 70 milhões de mulheres e oferecer internet grátis e cashback do Bolsa Família, a cobertura foi elogiosa. Mas, questiona o repórter, “se essa proposta fosse feita pelo Lula, os jornalistas decentes estariam criticando, é ou não é?”
O jornalismo que se curva a interesses políticos, comerciais ou ideológicos é um jornalismo morto. Quando a imprensa deixa de investigar, de questionar e de expor os poderosos com medo de represálias ou perda de contratos, ela trai o público que deveria servir. Os três casos narrados — a homenagem a Havelange, a proibição de falar sobre a CBF e a reportagem da pedreira São Marcos — são sintomas de uma doença mais profunda que corrói a credibilidade da imprensa brasileira.
“Interesses jornalísticos são os únicos que devem ser considerados por jornalistas”, conclui o repórter. Enquanto essa máxima não for seguida, o público continuará desconfiado, e o jornalismo seguirá perdendo sua razão de existir: contar a verdade, custe o que custar.

