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Flávio Bolsonaro: Entre a Unção Real e os Tropeços na Corrida Presidencial de 2026

Quando Flávio Bolsonaro leu a carta do pai indicando-o à presidência da República, no último 25 de dezembro, diante do hospital, o cenário parecia roteirizado. A imagem do primogênito ungido pelo patriarca evocou uma reflexão incômoda: estaríamos vivendo um regime monárquico, onde para manter a dinastia, o primogênito é alçado a príncipe herdeiro? O que parecia um movimento estratégico de Jair Bolsonaro para que alguém de sua confiança ocupasse a cadeira do bolsonarismo até que ele avaliasse bem a quem apoiar, ganhou contornos de uma narrativa quase bíblica. Mas a jornada de Flávio rumo ao Planalto tem se mostrado menos uma coroação e mais um percurso minado por tropeços que ele mesmo parece provocar.

O Sobrenome que Eleva e Pesa

Flávio, com o sobrenome que carrega, logo brilhou nas pesquisas. A premonição do pai parecia ter encontrado o sucessor capaz de interromper o declínio do país, tirando o governo das mãos do PT. O patrimônio político que ele carrega é inegável — foi o que o elegeu deputado estadual e senador. No entanto, o sobrenome que o elevou passou a ser também seu maior fardo. A rápida ascensão nas intenções de voto encontrou um obstáculo inesperado: o próprio candidato.

Mal começou a campanha e Flávio já demonstrava dificuldades em gerenciar as expectativas do clã. Apareceu cobrando divorciar a verba do filme “Trate-o como Irmão”, e a queixa pública de Michele em seguida escancarou as fissuras internas. O episódio o fez parar de crescer nas pesquisas, dando início a uma série de tropeços quase diários.

Os Tropeços que Minam a Candidatura

A cada semana, um novo incidente. O mais emblemático foi Flávio gravar um pedido de desculpas público a Michele, reconhecendo que ela também é porta-voz do pai. Uma convenção do PL sem Michele ficaria incompleta — faltaria a representação de Jair Bolsonaro. A tentativa de reparar o dano expôs ainda mais as fragilidades da campanha.

Mas o caldo engrossou com as duas notas fiscais de R$ 500 mil ligadas a uma pessoa próxima de Vorcaro, que recém havia provocado reações do TSE e do Supremo com declarações de desconfiança no processo eleitoral, afirmando que as máquinas da Smartmatic atuaram nas eleições brasileiras. Flávio repetia o gesto que tornara o pai inelegível — e, mesmo senador, com imunidade parlamentar garantida pelo artigo 53 da Constituição, não precisava saber que o arbítrio prevalece.

A Carta que Poderia Ter Custado a Prisão Domiciliar

Em um dos episódios mais surpreendentes, Flávio recebeu do pai uma segunda carta. Como advogado de defesa de Jair Bolsonaro, ele sabia muito bem das restrições impostas como condição para a prisão domiciliar: vedado contato com redes sociais, por si ou por intermédio de terceiros. Mesmo assim, Flávio levou a carta imediatamente para as redes sociais, colocando em risco a prisão domiciliar de seu cliente e pai.

A justificativa de que Lula não teve essas restrições quando preso não se sustenta — Flávio simplesmente não considerou o arbítrio vigente. Um erro incompreensível para quem deveria zelar pela liberdade do próprio pai.

Aliados que se Afastam, Inimigos que se Aproximam

A maior força política do Brasil, a Federação Progressistas União Brasil, que tem 1.335 prefeitos, a maior bancada na Câmara Federal e 14 senadores, fundo partidário de R$ 1 bilhão, declarou neutralidade sem votar em Lula. O motivo? Divergências com Flávio. A pergunta que fica é: como presidente da República, ele teria condições de formar uma base de apoio no Congresso se não consegue atrair partidos para sua campanha eleitoral?

Flávio ainda tentou emplacar a senadora Teresa Cristina como vice, mas ela recusou, apesar das tentativas do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e do coordenador de campanha, senador Rogério Marinho. Aliados históricos se afastam, enquanto figuras internacionais como Milei chegam para apoiar o ungido.

O Cálculo do PT: Prefiro Flávio como Adversário

Curiosamente, o PT parece preferir Flávio como adversário. Ao entrar com queixa contra ele sobre as declarações aos embaixadores, o deputado Lindberg Faria disse que só pediu multa, não inelegibilidade. “Nós vamos ganhar nas urnas”, afirmou. O cálculo político é claro: Lula perdeu para Collor e para Fernando Henrique, ganhou quando os adversários eram fracos (Serra e Alckmin), e teve as condenações anuladas a pretexto do “CP de Curitiba” porque era o único capaz de impedir que o capitão temido pelo Supremo fosse reeleito.

A tragédia fiscal, os impostos crescendo, os juros, a dívida pública gigantesca, a picanha que não chegou, a política externa, a insegurança — tanta coisa para ser aproveitada em debates, desde que quem use não tenha igualmente telhado de vidro. Lula, se perder, deixa para o sucessor um gigantesco legado de caos no estado brasileiro.

Nesses tempos agitados de pré-campanha, antes de Flávio versus Lula, o que aparece é uma preliminar de Flávio versus Flávio. O ungido pelo pai recebeu a unção com emoção e sonho de ser presidente, depois percebeu as dificuldades. “Ao vencedor, as batatas”, escreveu Machado de Assis. Mas o vencedor vai precisar de mais que um Paulo Guedes para pôr a casa em dia.

A expectativa de que o eleitor perceba que a escolha de dois senadores é ainda mais importante que a eleição do presidente pode ser a salvação de uma campanha que parece lutar mais contra si mesma do que contra o adversário. Fica a impressão de que Flávio está provocando exatamente o que o PT não quer — um impedimento de registro da candidatura —, e nessa dança perigosa, o maior adversário de Flávio pode ser ele mesmo.

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