Eles confessaram 240 crimes — incluindo 124 casos de corrupção e 96 de lavagem de dinheiro. Nunca foram condenados. O Estado, que deveria puni-los, tornou-se sócio deles. Essa é a história da JBS, a maior processadora de proteína animal do mundo. Gravaram o presidente da República, provocaram o maior crash da bolsa em uma década, foram presos duas vezes — e hoje circulam livres, com uma fortuna estimada em R$ 30 bilhões cada. Essa não é uma história de corrupção que deu errado. É a história de uma corrupção que deu muito certo.
O Começo: Um Açougue em Anápolis
Em 1953, José Batista Sobrinho, o “Zé Mineiro”, abriu um açougue em Anápolis (GO). Abatia cinco cabeças de gado por dia. Com a construção de Brasília, viu oportunidade e foi vender carne para os acampamentos das empreiteiras. Em 1970, comprou seu primeiro frigorífico, batizado de Friboi. Teve seis filhos. Nenhum dos três homens — Júnior, Wesley e Joesley — terminou o ensino médio. Aos 16 anos, Joesley já administrava um frigorífico do pai.
Mas para crescer de verdade, a Friboi precisava de algo que o interior de Goiás não costuma ter: o Estado.
O BNDES e a Política dos Campeões Nacionais
O BNDES é o maior banco de fomento da América Latina. Nos anos 2000, adotou a política de “campeões nacionais” — escolher empresas brasileiras e turbiná-las com dinheiro público para competir no exterior. A JBS foi a maior beneficiada. A Delação e o Preço da Liberdade
Em 2017, os irmãos Batista assinaram um acordo de leniência com o Ministério Público Federal no valor de R$ 10,3 bilhões — a maior multa da história do Brasil até então. Em troca, tiveram proteção penal. Não foram julgados pelos crimes que confessaram.
Meses depois, foram denunciados por insider trading: teriam usado informações privilegiadas para vender ações da JBS e comprar dólares antes do acordo vir a público. Foram presos preventivamente em setembro de 2017, mas soltos pelo STJ. Joesley foi preso novamente em 2018, na Operação Capitu, e solto três dias depois. No total, Joesley passou 6 meses na cadeia; Wesley, 5 meses. Em 2023, a CVM os absolveu da acusação de insider trading.
A JBS Depois da Lava-Jato: Maior e Mais Protegida
A Lava-Jato deveria ser o fim da história. Mas foi apenas um capítulo do meio. A JBS não só sobreviveu: cresceu. O faturamento foi de R170bilho~es∗∗em2016para∗∗R170bilho~es∗∗em2016para∗∗R 417 bilhões em 2024. Os irmãos, que em 2017 estavam atrás das grades, hoje são o 11º e 12º homens mais ricos do Brasil, segundo a Forbes.
Como isso foi possível?
- Operacional: Em 2017, a JBS já era multinacional. A maior parte do faturamento vinha de fora. A crise atingiu os donos, não a fábrica.
- Jurídica: A multa recaiu sobre a holding JF, não sobre a JBS, protegendo a empresa no mercado de capitais.
- Financeira: A JBS reduziu suas dívidas e diversificou receitas.
- Política: Os Batista não perderam o acesso ao poder.
O BNDES, que investiu bilhões, continua acionista relevante: detém 18% da JBS. O Estado não é apenas regulador — é sócio.
O Império JF: Muito Além da Carne
Os Batista não pararam na carne. A JF se tornou um conglomerado:
- JBS: maior processadora de proteína animal do mundo.
- Eldorado Brasil: uma das maiores produtoras de celulose.
- PicPay: banco digital com 65 milhões de clientes, listado na Nasdaq.
- Banco Original.
- Fluxus: gás e petróleo no Brasil, Bolívia e Argentina.
- LHG Mining: assumiu ativos de minério da Vale no Centro-Oeste.
- Flor de Higiene e Cosméticos.
- Canal Rural.
- Ambar Energia: dezenas de usinas — solar, hídrica, carvão, biomassa, gás natural e, desde 2025, nuclear, após comprar a fatia da Eletrobras na Eletronuclear.
A JF é o maior conglomerado privado do Brasil.
O Lobby Internacional e a Porta Giratória
Nos Estados Unidos, a JBS gasta centenas de milhares de dólares em lobby. Contratou Carla Tim, ex-chefe de gabinete do secretário de Agricultura dos EUA. Em 2025, Joesley se reuniu com Donald Trump na Casa Branca e o convenceu a remover tarifas sobre carne brasileira. A Pilgrims Pride, subsidiária americana, doou US$ 5 milhões ao comitê de posse de Trump — mais que Apple, Amazon, Meta e Google juntas. Em novembro, a SEC aprovou a listagem da JBS em Nova York. Joesley voou a Caracas e se encontrou com Nicolás Maduro para convencê-lo a renunciar, após se reunir com o secretário de Estado americano, Marco Rubio.
No Canadá, a JBS recebeu crédito tributário e uma estrada construída pelo governo. Na Austrália, a primeira-ministra do Estado de Victoria foi à planta da JBS anunciar investimentos. Em Omã, fez parceria com o fundo soberano. No Vietnã, assinou memorando durante visita de estado. No México, anunciou US$ 1,3 bilhão com aval do governo.
Padrão: a JBS cresce onde governos querem construir capacidade produtiva.
A Proteção no Brasil
Em abril de 2024, Lula foi a uma planta da JBS em Campo Grande acompanhar o primeiro embarque de carne para a China. Cumprimentou Wesley e Joesley nominalmente. Os irmãos participaram de cinco eventos públicos com Lula em pouco mais de um ano.
Em junho de 2024, o governo editou uma MP que transferiu para a conta de luz de todos os brasileiros o pagamento por energia comprada de um conjunto de usinas termoelétricas — custo estimado em R$ 30 bilhões. Os donos das usinas? Ambar Energia, do grupo JF. A empresa havia comprado as usinas três dias antes da MP ser publicada. O ministro de Minas e Energia chamou de “mera coincidência”.
Em setembro de 2024, auditores do Ministério do Trabalho recomendaram a inclusão da JBS na “lista suja” de empregadores que submetem trabalhadores a condições análogas à escravidão. O ministro Luiz Marinho interveio pessoalmente, retirou a competência dos técnicos e bloqueou a inclusão. Justificativa: impacto econômico. A JBS era grande demais para entrar na lista. Uma juíza discordou e determinou a inclusão. O governo não cumpriu.
Conclusão: O Estado que Cria e Protege
O que essa história revela? Que no Brasil, tamanho é documento. Existe um ponto a partir do qual uma empresa deixa de ser um agente econômico e passa a ser uma variável do Estado — um ativo que o governo não pode deixar quebrar, manchar ou encolher.
A Lava-Jato revelou muita coisa sobre o Brasil. Mas o que aconteceu com a JBS depois da Lava-Jato talvez revele ainda mais. A operação que deveria ser o fim virou um capítulo do meio. O Estado que deveria punir continuou financiando e protegendo.
Os Batista, que confessaram 240 crimes, hoje estão em Nova York, tocando o sino da bolsa. Do açougue de Anápolis aos pregões americanos, essa é a história de dois irmãos que aplicaram ao sistema político inteiro a lição que o pai ensinava: de um boi não se desperdiça nada. E o Estado, que deveria ser o carrasco, virou o sócio.
📌 O que essa história nos ensina sobre o poder corporativo?
O caso JBS expõe fragilidades profundas do sistema brasileiro. Para cidadãos e formuladores de políticas, ficam alguns alertas:
A imprensa e o MP são contrapesos fundamentais: Acompanhar e cobrar a atuação desses atores é papel de todo cidadão.
A concentração de poder é um risco: Empresas que se tornam “grandes demais” podem capturar o Estado e distorcer a regulação.
A política de “campeões nacionais” precisa de limites: Subsídios públicos devem vir com contrapartidas claras e mecanismos de recuperação em caso de desvios.
A separação entre regulação e propriedade é essencial: O Estado não deve ser, ao mesmo tempo, sócio e fiscalizador.
A leniência não pode ser uma porta de saída sem consequências: Acordos devem ser rigorosamente cumpridos e renegociados com transparência.

